TRABALHO DO DEMÓNIO – EPISÓDIO #4: A ASSISTENTE ESPIRITUAL

Iluminada. Xanti, xanti.

A saga continua.

Uma vaga patrocinada pelo karma, pela solidão e pela síndrome de burnout alheia.

Toma um ansiolítico antes que o ansiolítico te tome a ti — porque o que se segue não é uma oferta de emprego, é um exercício de renúncia à vida própria.

Procura-se vocação, paciência infinita e disponibilidade total de vida para ocupar uma função multifacetada, mística e brutalmente exigente:

– Assistente pessoal

– Motorista

– Agente de viagens

– Terapeuta

– Ombro amigo

– Guru emocional

– Guia espiritual de um CEO iluminado

Perfil da candidata ideal (porque sim, o género está subentendido):

– Mais de 35 anos (menos que isso não serve, que a Geração Z anda convencida que o mundo lhes pertence)

– Sem filhos pequenos (chegar com nódoas à camisola é falta de alinhamento energético)

– Gosta de silêncio, solidão e semanas fora de casa, de preferência a meditar sobre as suas próprias escolhas de vida

– Introvertida, mas sociável quando necessário

– Emocionalmente estável, mas flexível como uma mola

– Fluente em inglês, com carta de condução, vocação para mártir, paciência de santo e resistência de mula de carga espiritual

– Três quilos de paciência e um paninho de linho para a embrulhar

Funções incluídas:

– Acompanhar alguém 24/7

– Gerir tarefas, rotas, emoções alheias

– Abdicar da tua vida pessoal com leveza, compaixão e gratidão interior

Condições oferecidas:

– Contrato? Não se fala disso.

– Salário? Uma abstração.

– Benefícios? Emoção. Muita.

– E a honra de acompanhar Sua Excelência nos seus retiros internos e externos.

Se te identificas, larga o fundo de desemprego e candidata-te JÁ.

Porque isto, minha amiga, não é um emprego.

É um chamamento.

Se tiveres mais relíquias destas, envia por mensagem privada.

A rubrica Trabalho do Demónio – Conselhos das Deusas continua a crescer.

Estamos a construir um catálogo de vagas que nem o Inferno contrataria.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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