Trabalhos do Demónio – Episódio #15 – Anúncio de Emprego ou Tradução-Feita-pelo-Estagiário-do-Google-Tradutor?

Uma Análise Demoníaca de um Clássico Moderno da Arquitetura Frásica Portuguesa.

Anúncio de Emprego ou Tradução-Feita-pelo-Estagiário-do-Google-Tradutor?

Uma Análise Demoníaca de um Clássico Moderno da Arquitetura Frásica Portuguesa.

A SARAIVA+ASSOCIADOS, uma empresa nacional líder com “29 anos de atividade”, que aparentemente não teve 29 minutos para rever uma tradução, decidiu oferecer ao mundo um anúncio de emprego que é um verdadeiro monumento ao inglês técnico-traduzido-à-bruta.

Sim, senhores e senhoras, estamos perante um caso clássico de tradução literal com pitadas de Google Translate, um toque de formalismo vazio e uma pitada de confusão sintática, tudo embrulhado num embrulho de papel pardo chamado “Project Manager”.

Vamos aos destaques desta pequena pérola.

“Assisting in the Coordination and Planning of Architectural Projects”

Sabes quando traduzes palavra por palavra e ficas com uma frase que parece ter sido escrita por um robô educado mas socialmente disfuncional? Aqui está.

A pergunta que fica: estás a coordenar? a planear? a assistir ao plano? És figurante no planeamento ou levas café aos arquitetos? A frase não decide. Mas é bonita, e isso basta, não é?

“Collaborating in monitoring deadline compliance”

Parece um feitiço do Harry Potter. “Collaboratus monitorium deadlineum!”

Sim, porque “monitorizar a conformidade dos prazos” é mesmo algo que se diz… em português. E em inglês? Soa a alguém a tentar parecer sofisticado, mas a tropeçar nas escadas da clareza.

Spoiler: em inglês ninguém diz isto assim.

“Assisting in controlling the activities carried out by subcontractors”

Esta é ótima. Vais “assistir no controlo”, como quem segura a lanterna enquanto o engenheiro faz o trabalho?

“Availability, Proactivity and Resilience”

Nem uma frase completa. Só três palavras soltas com maiúsculas no meio dos bullets. Parece um mantra motivacional mal impresso num porta-chaves:

“Disponibilidade! Proatividade! Resiliência!”

Grita comigo em silêncio, SARAIVA.

“Good computer literacy as a user (Office)”

A sério? “As a user”? Estamos a recrutar humanos ou a tentar garantir que os candidatos não são impressoras multifunções com sentimentos?

Já estava a imaginar alguém alfabetizado em Excel por osmose. Ou um Word medium?

“Attractive remuneration conditions”

Mais um clássico do bullshit bingo. Querem dizer “salário competitivo”, mas optaram por uma frase que não quer dizer nada. Atrativo… Pisca o olho? Manda piropos?

Atrativo… para quem? Para o estagiário, o CEO ou o senhor do quiosque?


Um anúncio de emprego é uma extensão da tua marca.

Se não dedicas 30 minutos a escrever bem um texto que representa a tua empresa, estás a dar 30 razões para o talento ir bater à porta do vizinho.

Se queremos atrair talento internacional, precisamos de escrever como quem realmente quer ser entendido — e não como quem está só a cumprir tabela no Word.

Vaga em inglês aqui: https://lnkd.in/dmVf2Se9

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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