Conselhos das Deusas #5 – ADVISORY FROM THE GODDESSES: QUANDO O INGLÊS É CHIQUE MAS NÃO É NECESSÁRIO
“Isto é gozar com quem trabalha” — todos reconhecemos a rubrica do Ricardo Araújo Pereira.
Mas o que talvez não saibamos é que ela tem consequências silenciosas: cria pequenas micro-seitas que de facto gozam com quem trabalha. Porque só pode ser gozo, não acredito que alguém de Recursos Humanos escreva mesmo anúncios assim.
Ontem a Filipa Faria trouxe mais um exemplar para a colecção dos paradoxos humanos: um anúncio escrito inteiramente em inglês que, preto no branco, afirma não ser necessário saber inglês.
Este tipo de contradição não é só cómica. É também psicológica.
Quem lê é colocado num duplo vínculo: acreditas no que está escrito ou acreditas no que é óbvio? É a velha armadilha de dizer uma coisa e exigir outra.
É como uma relação tóxica: “não te peço nada”… mas cobro-te tudo.
Na prática, estes anúncios criam ansiedade e exclusão. Fazem com que quem não domina o inglês sinta desde logo que não pertence, e quem domina se pergunte porque razão a empresa não consegue ser clara. A incoerência mina a confiança antes sequer de a entrevista começar.
E depois há o folclore que adorna o absurdo:
– Trabalhar três dias no Estádio da Luz, como se a proximidade dos couratos fosse benefício.
– A oferta da Udemy, onde 80% dos cursos estão… em inglês.
– A lista de requisitos detalhados, em inglês, que termina no grande “não é obrigatório”.
O que está em jogo não é só a língua. É a seriedade com que se trata quem procura trabalho.
Se uma empresa não consegue escrever um anúncio coerente, como será a sua cultura interna?
Se a primeira mensagem já é um bug, como será o sistema inteiro?
O anúncio é engraçado, sim. Mas também é sintoma.
De um mercado onde brincar com paradoxos passou a ser aceitável, mesmo quando se trata do futuro profissional de alguém.
E nós, no Conselho das Deusas, não nos rimos só. Analisamos, expomos, desmontamos.
Porque rir pode aliviar, mas compreender transforma.

Deixe um comentário