Trabalho do Demónio – Episódio 20 | Administrativo de Vendas O polvo que tudo faz

Procuram um “Administrativo de Vendas”. Tradução: alguém que faz faturas, atende clientes, organiza bases de dados… e, surpresa, também apanha o avião para a Alemanha para representar a empresa na feira da batata.

A Vigilis Lda volta a ganhar destaque outra vez, na nossa rubrica semanal.

O anúncio pede:

1. Faturação, bases de dados, reservas de transporte → administrativo de vendas.

2. Lidar com clientes, visitar países, representar a empresa em feiras → isso já é gestor comercial/Account Manager.

3. Para quem gere a Vigilis e ainda não percebeu a diferença nós ajudamos:

O que faz um Sales Administrator (Administrativo de Vendas):

Processa encomendas e faturas.

Mantém bases de dados atualizadas (clientes, preços, transportes).

Dá apoio administrativo à equipa de vendas (da apoio com propostas, relatórios, apresentações).

É o motor silencioso que garante que os comerciais estão livres para… vender.

É uma função administrativa, muitas vezes de entrada, com foco em organização e detalhe.

O que faz um Account Manager / Gestor Comercial?

– Visita clientes, desenvolve relações e abre novos negócios.

– Negocia contratos e resolve problemas diretamente com o cliente.

– Representa a empresa em feiras e eventos.

– Tem um papel estratégico: crescer contas e trazer receita.

É uma função de front office, relacional, com responsabilidade direta sobre resultados.

Misturar estas duas funções num só título é como contratar um estagiário de contabilidade e pedir-lhe para ser CFO.

Na prática, o resultado é sempre o mesmo:

– Um “administrativo” frustrado porque passa mais tempo em aeroportos do que no Excel.

– Clientes confusos porque afinal é o “administrativo” quem os representa em feiras internacionais.

– E uma empresa a queixar-se de rotatividade porque ninguém aguenta este 2-em-1 low cost.

PME’s: títulos importam. Funções não são “tudo ao molho e fé em Deus”.

Se precisam de um administrativo de vendas, contratem isso.

Se precisam de alguém para viajar e representar a empresa, contratem um gestor comercial. Precisam de ser mais estratégicos na organização das vossas equipas. Perceber onde devem investir realmente, tendo em conta a fase em que se encontram.

Chamem-lhe administrativo, chamem-lhe gestor, chamem-lhe super-herói… mas não se esqueçam: quando misturam funções, o resultado é sempre o mesmo, ninguém fica satisfeito.

E depois admiram-se quando vêm relatórios a dizer que Portugal tem “baixa produtividade”.

Ora digam-me: quem é que consegue ser produtivo se lhe pedem para ter três funções numa só?

Não admira que quando o português vai lá para fora, cresce e floresce. Porque o mercado é adulto, maduro e percebe uma regra básica: se queres cobrar resultados, tens de dar condições.

E já agora, de onde vêm mesmo esses dados da “baixa produtividade” em Portugal?

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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