Trabalhos do Demónio – Episódio #21 – Anúncios de emprego: Portugal vs UK
Em Portugal ainda escrevemos anúncios de emprego como regulamentos internos?
Na rubrica Trabalho do Demónio, analiso semanalmente anúncios de emprego para encontrarmos juntos oportunidades de melhoria, sempre com um toque de sarcasmo e brincadeira, mas com um objetivo sério: perceber até que ponto o nosso mercado de trabalho ainda tem muito por onde crescer e, participar ativamente nesse crescimento.
Eu e a Anabela Moreira costumamos dizer no nosso Podcast Trabalho do Demónio, Conselhos das Deusas que os anúncios de emprego são o raio-X da cultura de uma empresa. E esta semana decidi fazer algo diferente: vamos comparar a mesma função, “Consultor de Viagens / Travel Consultant” anunciada em Portugal e no Reino Unido, por empresas diferentes.
À primeira vista, podem parecer anúncios iguais. Mas, ao olhar com atenção, percebemos que estamos a falar de dois mundos completamente diferentes.
Deixo-vos aqui as imagens dos anúncios para começarmos a análise:
1. Consultor/a de Viagens na Viagens Abreu, S.A.

Consultor de Viagens – Abreu
2. Travel Sales Advisor na Live the Dash Travel

Travel Sales Advisor
A Análise:
1. A Linguagem
🇵🇹 Portugal
- Tom formal, institucional, cheio de chavões: “rigor”, “excelência”, “sinergias”.
- Soa mais a manual de conduta do que a convite.
- É escrito do ponto de vista da empresa: o que nós esperamos de ti.
- Foco principal: vendas. A ênfase está em vender viagens, muitas vezes a qualquer custo, mais do que no serviço ao cliente.
🇬🇧 UK
- Tom direto, simples, quase aspiracional.
- Frases como “helping turn their vacation dreams into reality” ou “work from anywhere”.
- É escrito do ponto de vista do candidato: o que tu vais ganhar.
- Foco principal: cliente. A prioridade é prestar um serviço personalizado, criando valor e experiência, mais do que simplesmente fechar vendas.
2. O Foco das Responsabilidades
🇵🇹 Portugal
- Muitas responsabilidades são comportamentais: “assegurar a imagem adequada”, “criar sinergias”, “garantir atendimento de excelência”. Muito focado em aparências.
- Pouca clareza sobre as tarefas reais.
- Preocupação maior com disciplina interna do que com impacto no cliente.
🇬🇧 UK
- Lista objetiva e prática: captar clientes, aconselhar destinos, fechar vendas, upselling, registar no sistema, acompanhar pós-venda.
- Ciclo de trabalho completo: prospeção → consulta → venda → follow-up.
- Orientado a resultados e métricas.
3. A Proposta de Valor (Benefícios)
🇵🇹 Portugal
- “Pacote salarial competitivo”, mas sem nunca dizer quanto é (clássico).
- Benefícios descritos de forma genérica: “formação contínua”, “bom ambiente jovem e dinâmico”. Desde quando é que este segundo ponto é um benefício?
- Seguro de saúde e descontos em viagens, sim, mas apresentados sem detalhe nem força.
- No fundo, a promessa é simples: vem vestir a camisola da empresa.
🇬🇧 UK
- Aqui também não há transparência total no valor salarial, e confesso que fiquei desapontada.
- Ainda assim, dão mais esperança ao candidato: falam de comissões competitivas, bónus, horários flexíveis, progressão e mentoria.
- Ou seja, não dizem o número, mas dão sinais claros de que existe uma estrutura pensada para premiar esforço e resultados.
- A promessa passa a ser: autonomia, dinheiro e desenvolvimento.
O Que Está Por Trás Disto ?
Estes anúncios não são apenas textos diferentes. São reflexos de duas culturas de trabalho:
- Portugal → ainda recruta como quem quer “colaboradores para a família”, exigindo postura e lealdade. Com palavras vazias, informações dúbias, sem estrutura e sem foco na progressão de carreira dos candidatos.
- UK → recruta como quem quer “parceiros de negócio”, oferecendo clareza, autonomia e progressão.
Lições para RH
Um anúncio de emprego é marketing. É employer branding em ação. Se queremos atrair talento, precisamos de:
- Centrar no candidato – mostrar o que ele vai ganhar, aprender e conquistar.
- Clareza – listar responsabilidades reais, não chavões.
- Transparência – salários e benefícios claros.
- Tom humano – menos burocracia, mais conversa direta.
Um anúncio de emprego é muito mais do que palavras num ecrã, é o primeiro capítulo da employee experience. Este, diz ao candidato como a empresa olha para o seu talento, como valoriza a sua força de trabalho e que tipo de relação espera construir.
Nos mercados mais maduros, há uma percepção mais clara: respeito pelo candidato significa clareza, transparência e honestidade. Não quer dizer que tudo seja perfeito, longe disso. As lutas existem, os desafios mudam, e algumas práticas até podem ser mais duras. Mas já se percebeu que bons anúncios de emprego não se escrevem por obrigação, escrevem-se com estratégia e com empatia pelo mercado de trabalho.
Em Portugal, muitas vezes continuamos a escrever anúncios como se fossem regulamentos internos: foco em imagem, postura e chavões institucionais. No UK, e noutros mercados mais maduros, o foco desloca-se para o que o candidato vai ganhar, aprender e concretizar, sem promessas vazias.
O Trabalho do Demónio de hoje mostra que, até num simples anúncio, se revela o ADN organizacional e a maturidade com que uma empresa encara o seu capital humano.
E tu, se fosses candidato, a qual destes anúncios te faria clicar no “candidatar”?

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