Trabalhos do Demónio – Episódio #22 – Responsável de Produção – o gestor, o bombeiro e o faz-tudo da indústria portuguesa.
No papel, o Responsável de Produção é uma peça estratégica.
Na prática, em Portugal, é o equivalente a ter o comando da NASA… mas com o orçamento de uma pastelaria.
O Grupo Nortempo Portugal está a recrutar um Responsável de Produção para uma empresa “de renome” em Aveiro.
Até aqui, tudo bem.
Mas depois vem a descrição, e percebe-se logo que o “renome” se deve à ginástica laboral que ali se pratica.
O que devia ser um Responsável de Produção:
É o cérebro operacional da fábrica.
Planeia e coordena a produção.
Garante qualidade, prazos e segurança.
Lidera equipas, gere recursos e implementa melhorias.
Traduz a estratégia em processos concretos.
É uma função de gestão e planeamento, não de execução.
É quem faz a ponte entre o “board” e o chão de fábrica.
O que as empresas portuguesas acham que é um Responsável de Produção:
Um faz-tudo com diploma.
O anúncio pede alguém que:
– planeie produção, pessoal e compras;
– coordene equipas e também recrute;
– garanta segurança, qualidade e HACCP;
– faça controlo de stocks, compras de detergentes e gestão de fardas;
e ainda dê formação interna aos operadores.
Ou seja:
Gestor de Produção + Técnico de Qualidade + Comprador + RH + Formador.
Cinco cargos. Um ordenado.
E depois ainda se lê: “remuneração compatível com a experiência demonstrada”.
Pois. A experiência de quem já sobreviveu a um burnout e ainda sabe usar o Excel sem chorar.
Mas vamos ao ponto:
Quando se misturam funções assim, ninguém ganha.
O “Responsável de Produção” passa o dia a apagar fogos, não a planear melhorias.
As equipas ficam sem liderança real.
A gestão acredita que tem “otimização de recursos”.
Na verdade, tem é um profissional sobrecarregado e um sistema disfuncional.
PME’s: isto não é polivalência.
Isto é acumulação mascarada de produtividade.
E é exatamente por isso que depois aparecem relatórios a dizer que Portugal tem “baixa produtividade”.
Quem é que consegue ser produtivo se tem cinco funções num só contrato?
Se passa metade do dia no chão de fábrica, e a outra metade a preencher relatórios, fazer encomendas e formar operadores?
Não admira que quando o português vai lá para fora, floresça.
Lá fora o mercado é adulto e maduro, percebe que para cobrar resultados, é preciso dar condições e foco.
Chamem-lhe multitasking, chamem-lhe espírito de missão.
Mas sejamos honestos: é só mau design organizacional.
E enquanto continuarmos a confundir eficiência com exploração, os “Trabalhos do Demónio” vão continuar a multiplicar-se.


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