Trabalhos do Demónio – Episódio #24 – Director, mas faz favor de carregar as guias de transporte

Há anúncios que funcionam como testes psicológicos. Esté é um deles:

quantas funções consegues empilhar antes de perceber que o cargo devia chamar-se Super-Humano Operacional Polivalente mal Remunerado?

Este, claro, chama-se simplesmente “Director”.

Mas é adjunto operacional da direção. Tradução: és o copiloto de um avião… a conduzir o camião das malas.

Perfil:

  • 12.º ano ou engenharia “preferencial” (isso de ter cursos é overrated, humpf)
  • AutoCAD e Tekla “opcional preferencial” (ou seja, se souberes, ótimo; alguém tem de desenhar as peças, podes ser tu também).
  • Conhecimentos de metalomecânica, logística, procurement, transporte, fabrico e Office “na ótica do utilizador”, onde cabe tudo e mais um par de botas: vai do Excel à alma que se esgota em relatórios.

Responsabilidades:

  • Rececionar processos, acompanhar fabrico, gerir subempreiteiros, controlar pintura, organizar cargas, elaborar guias de transporte, fechar ordens… e, se sobra tempo, respirar Diretor. Tu respira!

Resumindo: és Director, mas também preparador, gestor de produção, técnico de qualidade, logística, compras e administrativo. Tudo em Sever do Vouga.

(E nas “obras no território nacional”, como quem diz para vais saltar de carrinha em carrinha com o telemóvel em punho e prestes a batercom a cabeça nas paredes.)

Oferta:

  • “Vencimentos e regalias em consonância com as praticadas no grupo.”

Ou seja, boa sorte a adivinhar quanto vais receber. Podes tentar adivinhar. Na volta levas com questão: Qual a tua expectativa salarial?

E “possibilidade de progressão”, vais subir até diretor de diretoria de diretores adjuntos, claro.

E o detalhe que me mata:



Mas ao que parece, a gerir uma empresa sem equipa de RH, ATS alguma actualização/formação em liderança, gestão, employer branding… you name it.

Maioria das vagas estão alocadas á Fátima Soares (vemos nos restantes job postings) mas esta não! Humpf!

Vamos perdir um ajuda para a Fátima. Um investimento de cerca de 40€ por mês num ATS simples, que a salvem de abrir 200 PDFs iguais, CV_final_agora_sim_versao_definitiva.pdf.

Sim, porque arrisco a dizer que o turnover nesta espresa é bastante grande. Mas calma, isto na volta é porque “não há talento disponível”.

Conclusão:

Este anúncio é o retrato de uma empresa que quer tudo: estrutura de grupo, práticas de PME e polivalência de start-up. Sem se ter profissionalizado em 30 anos de vida…

O resultado: uma vaga que parece escrita por quem nunca contratou, nem foi contratado, nos últimos 30 anos.

Armelim Hipólito, com tantos anos de casa já era para estarmos a recrutar melhor… Não sei, digo eu. C’os nervos.

Se precisares de uma ajudinha, estamos cá.

Às vezes o inferno não são as más intenções, é só falta de noção.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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