Trabalhos do Demónio – Episódio #28 – O RH dos 25 aos 35 (Preferência Mulher)


Há anúncios que nos fazem rir.
Há outros que nos fazem suspirar.
E depois há este, que nos faz pensar: será que alguém aprovou isto em 2025… com algum nível de noção instalado no seu software interno?

A Coldwell Banker City publicou há uns dias uma vaga para o Departamento de Recursos Humanos.

Sim, RH. A área que devia saber o que é discriminação, o que é inclusão e, na loucura, sei lá, o que diz a lei.

E começa assim, sem rodeios:
“Procuramos alguém entre os 25 e os 35 anos, comunicativo(a), ágil e com vontade de crescer connosco. (Preferência Mulher).”

Sim, leram bem.
Preferência mulher.
Porque, pelos vistos, competência ainda tem género.
E idade, já agora, entre os 25 e 35, porque aos 36 perdes a “vontade de crescer” e tornas-te um risco para a “energia do escritório”.

Segue-se uma lista de soft skills de cortar a respiração:
– Comunicação empática (para lidar com isto, é essencial).
– Agilidade e energia (sobretudo para escapar aos processos da CITE).
– Espírito de equipa (para fazer tudo o que falta, porque o resto da equipa é “jovem e dinâmica”).
E claro, “forte aptidão para utilizar tecnologia e IA”, porque nada diz “inovação” como um anúncio com discriminação de género e idade.

Reflexão:
Este não é só um mau anúncio.
É um espelho do que ainda anda por aí, empresas que acham que estão a “atrair talento”, quando na verdade estão a escrever guiões de comédia involuntária.

Este anúncio já foi retirado do ar.
Mas não devia bastar apagar, é preciso aprender.
E denunciar. Continuam a colocar nos restantes anúncios que querem “jovens”.

Em Portugal, anúncios discriminatórios (por idade, género, origem, etc.) podem e devem ser reportados à:
CITE –
Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Empregogeral@cite.pt
CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Génerocig@cig.gov.pt

Porque normalizar isto é aceitar que o mercado continue a afastar talento, e a tratar os RH como uma caricatura de si próprios.

E a pergunta que fica é:
Como será trabalhar numa empresa onde se define desde o início que os RH começam por excluir quem devia acolher?
E será que aos 36 anos fazem-te uma despedida com bolo e um bilhete para o “lar dos ex-colaboradores”?

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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