Trabalhos do Demónio – Episódio #29 – E quando é o Estado a discriminar por idade?


Hoje trago-vos um exemplo vindo de onde menos devia: do próprio Estado.
Sim, do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), o mesmo que devia zelar pela legalidade, ética e integridade do país.

Cheguei a este anuncio através do Nuno Tiago Pinto, pois segui com atenção a sua saída da Revista SÁBADO, que ao que parece não foi nada ética. E ao ver que começou uma nova posição no SIRP fui lá espreitar as vagas. Vejo uma vaga de RH, que com curiosidade fui espreitar. Não consegui ver nada sobre a função e começo a preencher o formulário e quando termino a data de nascimento aparece automaticamente esta mensagem a vermelho:

“Data de nascimento deve seguir o formato DD/MM/YYYY e o candidato deve ter entre 21 e 40 anos.”

Eu, nascida em 1984 com experiência altamente relevante em RH, que trabalhou em RH numa agência de recrutamento do Ministério de Saúde do Governo Canadiano sou, discriminada em Portugal porque tenho 41 anos.

Pelo próprio Estado português. No meu país de origem.
(Agora imaginem o que se faz ás restante pessoas…)

Se voltar amanhã para o Canadá, sou contratada num abri e fechar de olhos.

Isto não é um lapso técnico.
Isto é discriminação etária explícita.
E é ilegal.

Revejam o Código do Trabalho português, nos artigos:
Art. 24.º — Direito à igualdade no acesso ao emprego e no trabalho
Art. 25.º — Proibição de discriminação

O Estado, aquele que devia dar o exemplo, está a violar as próprias leis que cria.
Que moral resta depois disto para exigir boas práticas ao setor privado?

Como se pede às empresas que combatam a discriminação, quando o próprio Governo a legitima?

Eu e muitas outras pessoas, temos experiência, competência e energia que nenhuma idade apaga.

E todos os dias falo com pessoas que enfrentam o mesmo: profissionais incríveis, com carreiras sólidas, que são descartados por um número no BI.

O problema é estrutural.

E enquanto o Estado perpetuar esta hipocrisia, não há políticas públicas nem planos de inclusão que resistam.

Nuno Tiago Pinto, agora adjunto do Secretário-Geral do SIRP, peço-te que, dentro das capacidades da tua função, que revejas isto. Com esta política em vigor, num processo de recrutamento “normal” nem tu terias entrado…

Ao filtrar candidatos pela idade, estão a perder talento, diversidade e credibilidade institucional.

Se me tivessem na vossa equipa de RH, garanto: isto nunca passava. Mercados de trabalho maduros, éticos, estratégicos e profissionais não cometem estes erros de principiantes.

E como eu, há muitos profissionais no mercado prontos para contribuir com experiência e visão.

Quando quem governa discrimina, todos perdemos.

Agradeço-vos que partilhem o maior número de vezes este post, e que sejamos ouvidos. Isto é uma vergonha imensa.



Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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