TRABALHO DO DEMÓNIO – EPISÓDIO #6: A ENFERMAGEM À EXPERIÊNCIA

Profissionais de saúde, atenção.

Esta vaga é tão “única” que quase se ouve o som de um penso rápido a descolar só de a ler.

Título alternativo:

“A Enfermagem à Experiência” – versão low cost com responsabilidade clínica incluída.

Procuram-se:

– Enfermeiros(as) com experiência em feridas (literal e emocional)

– Com carta de condução (para peregrinação de domicílio em domicílio)

– E com espírito de iniciativa (porque a gestão vai estar em modo voo de cruzeiro)

O melhor?

Dois dias à experiência.

Sim, leste bem: 48 horas a trabalhar para “ver se és bom nisto”, sem garantias.

Uma espécie de amostra grátis de iogurte no supermercado — mas com responsabilidade clínica.

Com sorte, oferecem-te um café e uma bolacha Maria. E um silêncio cúmplice enquanto dás tudo e esperas que te perguntem o nome.

E o horário?

“De acordo com o funcionamento da clínica.”

Traduzido: o funcionamento de um micro-ondas avariado — apita quando quer e gira em círculos.

Se a clínica abrir às 8h, lá estás tu com o sorriso pronto.

Se fechar às 20h, ainda estás à espera que alguém diga “boa noite”.

E a remuneração?

“Compatível com o mercado.”

Mas qual mercado? O municipal? O de Matosinhos? O da fruta?

E os KPI’s?

– Quantos pensos por minuto?

– Com ou sem betadine?

– Se usares pensos da Hello Kitty, ganhas pontos extra?

– Existe leaderboard interna? Há prémio “Enfermeiro Ninja 2025”?

No fundo, querem alguém com competência clínica, estofo emocional, resistência física, humildade contratual e vocação para a invisibilidade.

Encontraste mais vagas com micro testes dentro de testes, horários líquidos e critérios invisíveis?

Envia por mensagem privada e junta-te à rubrica que diz o que muitos pensam, mas poucos têm coragem de escrever.

Bem-vindos ao Trabalho do Demónio – Conselhos das Deusas, o melhor do absurdo em formato contratual.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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