TRABALHO DO DEMÓNIO – EPISÓDIO #10: O TELEGRAMA DO RECRUTAMENTO

Segurem-se.

Respirem fundo.

O que se segue é o job posting mais direto da história da humanidade.

“Empresa precisa de Engenheiro Civil m/f para zona de Lisboa. Enviar CV para:”

Pimbas.

Fim.

Sem rodeios. Sem parágrafos. Sem explicações.

Engenheiro Civil. Lisboa. Boa sorte.

Vamos tentar decifrar este telegrama de recruta minimalista.

O que procuram?

Um engenheiro civil. Ponto final.

Não interessa se para construção, fiscalização, demolição, medição, drenagem, pontes ou trincheiras a laser.

És engenheiro civil? Já serve.

Para onde?

Lisboa.

E se estás a perguntar em que zona, é porque tens pouca fé.

O que vais ganhar?

Um ordenado de engenheiro civil.

Não sejas exigente. A empresa é confidencial, o salário é imaginário e a informação é opcional.

O que vais fazer?

“Coisas de engenheiro civil”, evidentemente.

Se precisas de mais detalhes, se calhar nem és engenheiro a sério. Pfffff.

Como te candidatas?

Envias o CV. Só isso.

Sem carta de motivação, sem fotografia, sem salamaleques.

É chegar, enviar e agradecer o privilégio.

O que o anúncio não tem:

– Descrição da função

– Responsabilidades

– Requisitos

– Nome ou apresentação da empresa

– Qualquer coisa que justifique ter sido escrito depois de 1987

Mas tem o essencial:

Uma confiança inabalável de que alguém vai olhar para aquilo e pensar:

“É aqui que quero construir o meu futuro.”

Moral da história:

Se fosse mais curto, era um post-it num poste de eletricidade em Chelas.

Se fosse mais vago, era um desejo lançado ao universo com a ajuda de um cristal.

Já viste uma obra-prima destas?

Manda.

No Trabalho do Demónio – Conselhos das Deusas, damos voz aos anúncios que foram claramente escritos em cima do joelho — e ainda assim acham que estão a contratar talento.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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