TRABALHO DO DEMÓNIO – EPISÓDIO #11: DIRETOR(A) DE RH, DESDE QUE SEJA JOVEM E MALEÁVEL COMO A PLASTICINA

Local: Setúbal

Vaga: Diretor(a) de Recursos Humanos

Ambiente: Jovem, animado e com espírito de startup… mas com o salário ainda em beta testing e uma clara negação sobre o que significa ser Diretor de RH.

Vamos por partes. Como num bom contrato de trabalho que, ironicamente, ninguém aqui terá tempo de ler.

Frase-chave do anúncio:

“Procuramos alguém com espírito jovem e moldável para liderar os nossos Recursos Humanos.”

Tradução imediata:

Idadismo disfarçado de entusiasmo.

Querem liderança… desde que venha com menos de 30 anos e uma boa dose de submissão.

E atenção ao paradoxo:

– Diretor(a) de RH

– Em part-time

– Sem necessidade de experiência

– Mas com a responsabilidade de recrutar, integrar, gerir e fomentar cultura

Ou seja: querem um unicórnio, mas pagam em ração de pónei.

Entrevista imaginária:

— Qual é a sua idade?

— 42.

— Ui. E acha que ainda consegue usar emojis numa comunicação interna?

— Tem experiência com legislação laboral?

— Sim.

— Ui. Isso não combina muito com o nosso espírito jovem e disruptivo.

— Consegue liderar uma equipa de forma estratégica?

— Claro.

— Hmm. Isso soa-nos a… demasiado estruturado.

Outros detalhes do paraíso:

– “Ambiente jovem e animado”

– “Equipa de 3 pessoas”

– “Crescimento real”

Mas a realidade parece mais:

– Fazes tudo

– Tens zero apoio

– Começas em part-time porque… é mais “divertido” assim

Podemos chamar isto pelo nome?

Um verdadeiro Diretor de RH Nespresso® Edition: só de manhã, curto, intenso e descartável.

Ideal para quem quer a responsabilidade inteira do cargo, por metade do ordenado e com zero estrutura.

Moral da história:

Dizer que procuras “espírito jovem e moldável” num anúncio de emprego em 2025 é apenas uma forma disfarçada de excluir quem tem idade, experiência e espinha dorsal.

Idadismo puro. Com glitter por cima.

Já viste mais um “RH para Totós”?

Manda.

O Trabalho do Demónio – Conselhos das Deusas está cá para traduzir estes anúncios do LinkedInês para o bom e velho sarcasmo português — com a seriedade que o tema merece.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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