TRABALHO DO DEMÓNIO – EPISÓDIO #12: CRIA MAIS ARQUITETOS… PORQUE O ÚLTIMO JÚNIOR EVAPOROU-SE

O anúncio é curto. O absurdo, esse, é imenso.

“A empresa X está em franca expansão e procura um/a Arquiteto/a Júnior com vontade de aprender, sentido crítico e entrada imediata.”

Ah, e preferencialmente da zona de Lisboa.

Porque, aparentemente, a criatividade tem limites geográficos.

Ou talvez queiram garantir que ficas até às tantas sem precisar de apanhar o último comboio.

O sonho:

Passaste cinco anos a virar noites, a desenhar maquetes impossíveis, a ouvir professores dizer que arquitetura é arte, é legado, é missão.

A realidade:

Aparece isto.

Vamos por partes.

– “Empresa em franca expansão”

Tradução: expansão da lista de tarefas não pagas.

– “Entrada imediata”

Tradução: o último júnior evaporou-se.

– “Contrato de trabalho e regalias em vigor na empresa”

Tradução: regalias tão misteriosas que não se atrevem a descrevê-las.

O que não há:

– Nada sobre salário

– Nada sobre progressão na carreira

– Nada sobre o tipo de projetos: vais projetar museus ou alinhar caixas no AutoCAD?

A grande tristeza:

Continuamos a tratar profissões como a arquitetura como se fossem hobbies de luxo.

Querem rigor, criatividade, sentido crítico — mas não dizem o que dão em troca.

A tal “franca expansão” parece ser apenas da capacidade de pedir tudo… e oferecer quase nada.

Resumo cruel:

Pedem portfólios dignos da Bienal de Veneza.

Mas na volta pagam como se estivesses a fazer estágio de verão a dobrar papéis na reprografia.

Moral da história:

Se queremos “criar mais arquitetos”, então temos de criar:

– Salários decentes

– Planos de carreira

– Respeito pela profissão

Até lá, o mercado continuará a construir sonhos… só para os demolir logo a seguir.

Episódio 12 termina assim:

Cria mais arquitetos?

Mais parece cria mais expectativas — e depois deixa-as cair como um prédio mal calculado.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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