Trabalho do Demónio – Episódio #14 – O problema nem é o anúncio. São as perguntas.

Começa como um match no Tinder profissional: tudo parece promissor.

Uma startup internacional com uma missão clara, um texto (até) bem escrito, promessas de flexibilidade, crescimento e um tom quase… humano?

“Uau, quem me dera trabalhar aqui.”

E depois…

Entram as perguntas.

É nesta fase que o processo ganha contornos de consulta do INE mais drama de novela de domingo à noite. Eis algumas das pérolas do formulário:

Qual a tua idade?

E pronto. Logo aqui se ouve o barulho da inclusão a ser atirada pela janela.

Relevância disto para o cargo? Zero.

Mas serve na perfeição para filtrar candidatos por um preconceito disfarçado de “perfil cultural”.

Só falta perguntarem o signo e o grupo sanguíneo.

Estado civil:

☐ Solteiro ☐ Casado ☐ Prefiro não dizer

Isto ainda se pergunta em 2025? Pergunta-se.

Spoiler: a não ser que o trabalho envolva ser herdeiro/a ou partilhar IRS, esta pergunta é completamente irrelevante — e é discriminatória.

Perguntas que exigem mais que um MBA em psicologia

“Quão importante é este trabalho para a tua vida e da tua família? Responde com radical honestidade.”

Ah, claro! Porque nada diz “ambiente profissional saudável” como uma consulta emocional antes do contrato.

Este tipo de pergunta mistura carência emocional com estratégia de RH duvidosa.

Queres saber se a pessoa é dedicada ou fácil de explorar?

Flexibilidade… para quem? Onde? Como?

“Estarias disponível para trabalhar mais de 8 horas por dia?”

“Estarias disponível para ajudar durante os teus dias de folga?”

Respostas como:

• “Claro, sempre que precisarem!”

• “Sim, de vez em quando.”

• “Não, preciso de equilíbrio.”

Ou seja: dizem-te que o trabalho é remoto, flexível e moderno, mas logo a seguir abrem o leque para um caminho que mais parece que te vão passar com um trator por cima.

A cereja no topo do absurdo

“Responde às próximas questões sem usar ChatGPT ou inteligência artificial.”

Então deixa ver se percebi:

• Usam IA para fazer filtros, formulários e anúncios.

• Mas tu, pobre mortal, tens de escrever um mini-romance à unha, enquanto justificas como lidaste com clientes tóxicos e prazos impossíveis.

Porque a autenticidade só está a valer se queimar pestanas, certo?


Reflexão final

Um processo de recrutamento não é só uma triagem. É um espelho da cultura da empresa.

Se antes mesmo de seres entrevistado, já tens de abrir o coração, abdicar da vida pessoal e provar que não és preguiçoso — o que será depois?

Para quem se candidata:

Aprendamos juntos a ler nas entrelinhas.

Um bom anúncio não compensa um mau processo.

O teu tempo e energia são valiosos. Investe-os com critério.

Para quem recruta/emprega:

Malta… temos caminho pela frente. Muito.

E a crítica aqui não é para destruir. É para construir.

Uso o humor como ferramenta, não como arma.

Esta rubrica é um espelho, não um tribunal.

Recrutar pode (e deve) ser ético, claro, criativo e humano.

E se precisarem de ajuda para tornar isso realidade, já sabem: estamos por aqui.

Um grande obrigada a todos vocês que me continuam a enviar estes Trabalhos do Demónio.

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Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

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