Trabalho do Demónio #16 — Estágio ou Pós-Doc em Estratégia e Recrutamento?

Meninas e meninos de RH, vamos respirar fundo. Vamos falar sobre este job posting que me chegou às mãos com cheiro a fotocópia de 2012 e exigências de 2030.

A vaga é para Técnico de Recursos Humanos em estágio IEFP.

Requisitos? Talento sobrenatural, experiência mística e capacidade de dobrar o espaço-tempo.

Sim, IEFP. Aquele programa que serve para integrar jovens no mercado de trabalho, para que aprendam, cresçam e cometam uns erros pedagógicos ao longo do caminho. Tudo certo até aqui.

Mas depois… começa o delírio.

Querem alguém:

  • Que publique anúncios ✔️
  • Que faça triagens ✔️
  • Que realize entrevistas ✔️
  • Que desenvolva estratégias de recrutamento (perdão?)
  • Que vá a feiras, trate da papelada, esteja na linha da frente

E, cereja no topo do delírio:

“Experiência em recrutamento e seleção”… para um estágio.

Isto é um estágio. IEFP. Primeira oportunidade. Não é a Fórmula 1 dos Recursos Humanos.

Estamos a falar de jovens profissionais que ainda estão a descobrir se “headhunting” é uma técnica de recrutamento… ou um desporto radical.

Se estás a pedir experiência prévia, definição de estratégias, domínio de processos de A a Z e esse combo inteiro de funções… então não estás a contratar um estagiário.

Estás à procura de alguém com 2 anos de experiência, pago a preço de sopa do refeitório.

O estagiário não vai “desenvolver estratégias de recrutamento”, meus amores.

Vai estar a aprender como se publica um anúncio, como se faz uma triagem sem parecer que está a escolher frango no talho, como se responde a um candidato sem parecer um bot.

Vai cometer gafes, receber feedback, melhorar. É esse o propósito.

Ah, mas tem “formação contínua”!

Provavelmente a formação vai ser:

  • “Como fazer o trabalho de duas pessoas sem refilar”
  • “Introdução ao burnout precoce”
  • “Excel avançado para apagar fogos em RH”

O problema não é só o anúncio. É o mindset.

Enquanto continuarmos a tratar estágios como mão de obra barata, ou pior, como substitutos de pessoas que deviam estar contratadas, não estamos a fazer um favor a ninguém.

Não é justo para os jovens.

Não é justo para quem já está na equipa.

E não é bom para as empresas que dizem que querem atrair e reter talento.

Código do Trabalho? Nunca ouvi falar.

Sabias que o estágio profissional, segundo o Código do Trabalho, serve para “complementar e consolidar competências”?

Em lado nenhum diz:

“Substituir alguém com 3 anos de casa enquanto poupas no orçamento.”

Mas pronto, quem precisa de leis quando temos “+Talento™”, não é?

Vamos pensar juntos?

Querem contratar um estagiário? Ótimo.

Peçam alguém com vontade de aprender, com curiosidade, com espaço para errar (e melhorar).

Querem gente motivada?

Então: invistam em ensinar, não em exigir.

Porque se não estás disposto a ensinar, então não estás a contratar um estagiário. Estás a explorar.

Autor

A Filipa é estratega de RH, autora da rubrica original “Trabalho do Demónio” e mestre na arte de detectar o disparate com uma pontaria feroz. Tem mais de 15 anos entre o talento e a tecnologia, a agilidade e a burocracia, a promessa e a realidade. Vive entre frameworks ágeis e cafés fortes, mas é no absurdo dos anúncios de emprego que encontra o seu combustível. Escreve com ironia afiada e precisão cirúrgica. Ri-se para não chorar — e expõe para transformar. Porque humanizar o trabalho começa por saber olhar de frente o ridículo. E dar-lhe nome.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *