Instrutor Fitness — Call on Me, Mas Não Perguntes Quanto Paga
Call on me, call on meee — Eric Prydz a ecoar enquanto alguém faz crunches num open space
Estamos a recrutar Instrutor Fitness.
Respiração ofegante
Onde? Porto Salvo.
Quando? Em horários tão específicos que parecem escolhidos por um DJ de aulas avulsas.
Como? Enviando o CV e confiando no universo.
Este anúncio é aquele clássico do fitness corporativo:
– minimalista, misterioso e cheio de fé.
Procuramos um professor com experiência.
Tipo… Jane Fonda, mas sem dizer se pagamos como Jane Fonda.
Queremos dinamismo, estilo Joe Wicks no YouTube,
mas em horários de ginástica laboral, com cara séria e sem milhões de subscritores.
Horários disponíveis:
– Segunda ao fim do dia
– Quarta de manhã
– Quarta à hora de almoço
Tradução fitness:
“Não consegues viver disto, mas consegues organizar a tua vida inteira à volta disto.”
Requisitos (edição VHS dos anos 90)
✔ Formação
✔ Experiência
✔ Boa comunicação
✔ Vontade de evoluir
✔ Disponibilidade imediata
Ou seja:
– Arnold Schwarzenegger na forma,
Jillian Michaels na energia,
instrutor de Pilates zen,
com agenda flexível de freelancer,
e nenhuma pergunta incómoda sobre dinheiro.
Não sabemos:
– quanto paga
– se é recibos verdes
– se há continuidade
– se há plano
– se há futuro
Mas sabemos uma coisa muito importante:
– queremos vontade de evoluir na empresa
Evoluir para onde?
Para o quê?
Para Body Pump emocional?
Para plank eterno sem progressão?
O ambiente imaginado:
Visualiza comigo:
Tapetes no chão
Pessoas de escritório a alongar
Tu a contar repetições
Call on me a tocar na tua cabeça
E a pergunta silenciosa:
“Estou a evoluir… ou só a tapar buracos de agenda?”
O problema não é o fitness
O problema não é a vaga.
Estamos a falar de instrutores de fitness.
Profissionais com:
– formação técnica
– responsabilidade física sobre outras pessoas
– impacto direto na saúde
– trabalho emocional e relacional intenso
Nos comentários encontras links de anuncios noutras geografias – anúncios minimamente profissionais, fala-se de:
– responsabilidades claras
– contexto do trabalho
– expectativas reais
– remuneração
– desenvolvimento profissional
Aqui falamos de:
“Manda o CV e logo vemos.”
A pergunta que se impõe (e dói)
– Quando é que vamos parar de brincar aos empregos?
– Quando é que percebemos que um anúncio é o primeiro sinal de respeito?
– Quando é que entendemos que isto não é um “favor”, é o trabalho e a vida de alguém?
O trabalho de um instrutor não é só “dar umas aulas”.
– É identidade.
– É corpo.
– É energia.
– É profissão.
Se o anúncio parece improvisado,
o contrato (se exisitir) costuma ser também.
E a “vontade de evoluir” acaba quase sempre…
em vontade de sair.


