S2 EP6 — A 2improve que improvas o improvement de improvar está outra vez a contratar
Já é a segunda (des)oportunidade da casa a ser featured na nossa rúbrica dos Trabalhos do Demónio, fidelização de cliente, chama-se a isto.
São “apaixonada por encontrar e desenvolver talentos”. Phew aind bem…
Um Grupo Empresarial (sem nome, que o mistério vende) procura um/a Técnico/a de Eletrónica para a zona do Grande Centro. Que zona é essa? Não sabemos.
Ora vejam lá o que se pede: Técnico de Eletrónica, Mecânico de Desencravamentos, Informático de Redes e Sistemas Operativos, Formador, Comercial com Vocação, Bilingue em Inglês e de preferência Trilingue com Espanhol, Motorista Encartado e, já agora, Modelo Fotográfico. Enfim, um canivete suíço com dentes brancos!
Porque o anúncio acaba assim, com toda a naturalidade do mundo:
Agradecemos o envio do CV com foto.
Tu vê lá. Tira uma foto a sorrir. Lava bem os dentes. Penteia-te. Aquilo do técnico de eletrónica é só para enganar, isto é um casting da Face Models mas não te querem dizer logo à primeira, tá bem?
E a seguir, sem pestanejar:
Todas as candidaturas serão tratadas confidencialmente ao abrigo do RGPD.
Ah, o RGPD, esse fofo!
Esse mesmo, que diz que só se devem recolher os dados necessários para a finalidade. E que necessidade tem uma cara para desencravar uma contadora de notas? Nenhuma.
Mas o RGPD fica sempre bem no rodapé, tipo amuleto.
E agora a melhor parte. Vais passar os dias a reparar recirculadoras, contadoras e validadoras de notas e moedas. Literalmente com as mãos dentro do dinheiro dos outros. Milhares de euros por dia a passar-te pelos dedos. E no fim do mês levas para casa… entre 1.000 € e 1.200 €.
Tradução: contas o dinheiro dos bancos o mês inteiro, e o teu cabe numa só passagem pela máquina.
Ah, mas exigem integridade. Pois. Com este salário, a integridade é mesmo obrigatória. É a única coisa que te pagam a mais.
E nos benefícios, a habitual lista de compras:
Viatura da empresa: para ires aos clientes.
É uma ferramenta de trabalho, não é um prémio. Ninguém põe chave de fendas da empresa nos benefícios.
Disponibilidade para horário flexível: flexível para quem, exatamente? Já sabemos.
Excelente ambiente de trabalho e progressão de carreira: de onde, para onde e quando, ninguém diz.
Mas vamos falar a sério.
Pedir fotografia num CV não é prática do mercado, é abrir a porta à discriminação pela aparência, idade, género ou origem, que o Código do Trabalho (arts. 24.o e 25.o) proíbe no acesso ao emprego. E é recolher dados que o RGPD manda não recolher. Num anúncio feito por uma empresa de recrutamento, que vive disto.
A gestão foi das pedras ao RH. E até estudou qualquer coisa da área, imaginem se não tivesse estudado RH. O que é que sairia daqui?
É preciso muita paciência e um paninho para embrulhar.
Por Filipa Faria. Publicado originalmente no LinkedIn, na rubrica Trabalho do Demónio.

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